Trovão
Quando eu era criança eu tinha pavor de trovões. Acho que até certo ponto todo mundo é assim, mas era especialmente grave para o meu eu mais novo, que era aterrorizado por quaisquer sons altos como balões estourando; fogos de artifício no ano novo; ou mesmo eletrodomésticos barulhentos como liquidificadores, aspiradores de pó e secadores de cabelo. Diferente de todos esses, o trovão não foi uma criação diabólica do homem, e era mais difícil de evitar. O único abrigo que eu criança tinha para me proteger um pouco era debaixo das cobertas da cama, para tentar abafar o som e evitar a ansiedade de ver o relâmpago.
Os adultos tentavam me confortar de alguma forma. Meu pai falava duas coisas para me acalmar: primeiramente, na esquina da rua de casa, havia um pequeno condomínio, uma série de pequenos prédios. Dizia meu pai que esse condomínio tinha pára-raios, e se o raio caísse perto, provavelmente cairia lá. Na verdade, mesmo que não tivesse o pára-raios, a altura dos prédios já era o suficiente para atrair mais os raios que qualquer outro ponto no bairro. Mas eu criança não botava muita fé nisso: os prédios não eram tão altos assim, pelo menos na minha concepção infantil. Então, meu pai falava também para que eu usasse chinelo durante as tempestades, pois o chinelo é de borracha e borracha não conduz eletricidade, logo o raio nunca ia me atingir. Claro, o problema maior é que nenhum desses conselhos me livrava de ter que aguentar o estrondo do trovão, que era o que assustava mais, e não tanto a perspectiva de ser atingido pelo raio.
Na casa da minha avó, onde eu passava a maior parte das tardes enquanto meus pais trabalhavam, o único canal que tínhamos para assistir desenhos animados naquele horário era a TV Cultura. Lá, aprendi, através do desenho animado d’Os Sete Monstrinhos aquela heurística americana de contar com a palavra “Mississippi” o tempo que levava entre o brilho do relâmpago até o som do trovão, para estimar a distância de onde o raio caiu. Assim que você vê o relâmpago, você conta em voz alta “1 mississippi, 2 mississippi, 3 mississippi…” e para quando o som chega até você. O número de “Mississippis” que você contou, dividido por cinco, é aproximadamente a distância em milhas em que o raio caiu, devido a diferença entre a velocidade da luz e do som. A intenção do uso da palavra “Mississippi” na contagem é que o tempo em que demora para se falar esse nome seja aproximadamente 1 segundo, de modo que essencialmente você está contando os segundos que se passaram. Nessa época, eu não sabia o que era Mississippi, mas como criança eu não parava para pensar nisso. Para mim, podia ser muito bem só uma palavra que os monstrinhos inventaram.
Minha mãe, por sua vez, tinha um conselho parecido porém mais simples, que era prestar atenção no tempo que passava entre um trovão e outro. Quanto mais tempo demorasse, mais longe a tempestade estava. Não sei se isso é uma métrica boa para a distância da tempestade, mas intuitivamente ela nos dá uma noção da intensidade da tempestade. E o fato que se estima que o Brasil é o país mais atingido por raios no mundo, que era constantemente noticiado em revistas de curiosidades como a Recreio, Super Interessante e Ciência Hoje que eu era muito exposto quando criança, me aterrorizava! E me deixava levemente confuso, pois não era todo dia que a gente tinha uma tempestade forte por aqui.
Acho que no fim das contas, o que me ajudou a ficar confortável com esse medo de trovão e o desgosto por chuvas e tempestades é o pensamento que, a partir do momento em que a chuva e os raios começam, eles estão sempre mais perto de acabar. Não só pelo tempo da chuva ser finito, mas porque claro, as nuvens por mais carregadas que estejam, não são infinitamente densas e carregadas. Acho que na vida muitas coisas também são como as tempestades e os trovões, que vêm, mas passam.